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Homenagem ao maestro Ângelo Crivellaro (1891 – 1957):
O que resta hoje na lembrança?
O que resta hoje na lembrança?
Resumo:
Partindo de uma discussão sobre lugares de memória para preservação da História, este artigo apresenta o contexto histórico do período do final do século XIX início do século XX em Porto Alegre, como pano de fundo do estudo biográfico sobre o maestro Ângelo Crivellaro e de sua permanência na cidade. Num segundo momento este teve o intuito de trabalhar com a aplicação de teorias sobre História e memória na prática, verificando a afirmação de Pierre Nora sobre a eficácia dos lugares de memória e vivência.
Partindo de uma discussão sobre lugares de memória para preservação da História, este artigo apresenta o contexto histórico do período do final do século XIX início do século XX em Porto Alegre, como pano de fundo do estudo biográfico sobre o maestro Ângelo Crivellaro e de sua permanência na cidade. Num segundo momento este teve o intuito de trabalhar com a aplicação de teorias sobre História e memória na prática, verificando a afirmação de Pierre Nora sobre a eficácia dos lugares de memória e vivência.
Palavras chaves: História de Porto Alegre, maestro Ângelo Crivellaro, rua Ângelo Crivellaro, lugares de memória, biografia, memória.
A História Tradicional voltava-se apenas para os grandes vultos históricos e aos grandes fatos políticos, dando atenção apenas à documentação oficial, assim limitando a pesquisa histórica a essas áreas de atuação. Já a escola dos Annales veio com o intuito de ampliar os espaços que a História poderia desbravar. Na corrente histórica dos Annales, o estudo de questões regionais chegou numa velocidade muito acelerada, donde diversas pesquisas sobre esse foram desenvolvidas neste sentido.
Quando tratamos do estudo de monumentos históricos, nomes de ruas, praças, avenidas, datas comemorativas, espaços culturais em homenagem a uma pessoa que teve importância histórica na região, verificamos que através desses meios busca-se manter presente na memória da comunidade a pessoa homenageada, ou seja, há o intuito de que as realizações dessa pessoa, que de uma ou outra influenciaram para o crescimento local, se mantenham vivas. Mas até que ponto esses suportes (lugares de memória[1]) mantém na memória interior[2] da comunidade a pessoa homenageada? Aloïs Riegl afirma que esses “monumentos intencionados” têm (...) o fim especifico de manter feitos ou destinos individuais (ou um conjunto destes) sempre vivos e presentes na consciência das gerações futuras.[3] Será que esse objetivo apontado pelo autor Aloïs Riegl é sempre alcançado? Trabalhando com essa linha de abordagem, creio que existe a necessidade de que se pesquise sobre a pessoa em questão, para que assim seja feito o registro histórico desse personagem. A realização desse trabalho precisa ser feito por meio de suportes ainda existentes que se relacionam com o personagem histórico tratado, mas com um objetivo seguinte de verificar se realmente o suporte material garante a permanência deste na memória da comunidade.
Visto essa questão inicial, o trabalho visou investigar o que fez o maestro Ângelo Crivellaro para ter um logradouro público com seu nome e se realmente essa homenagem alcançou seu objetivo, o de manter viva na memória interior da comunidade sua importância. Para desenvolver esse estudo utilizei-me da reminiscência[4], termo referido ao pensamento aristotélico, devido ao grau de parentesco que possuo com o maestro, sendo ele meu tio-avô e como uma outra motivação, para colaborar em manter viva uma parte da História citadina de Porto Alegre que vai aos poucos se perdendo no esquecimento.
Como metodologia adotou-se um apoio bibliográfico sobre o contexto da porto-alegrense, de entrevista oral com uma pessoa que conviveu com o maestro Ângelo Crivellaro, questionários com moradores da rua Ângelo Crivellaro e funcionários da escola de música Palestrina, além de pesquisa documental que se referisse ao maestro.
Contexto porto-alegrense
Para iniciar os estudos creio ser de suma importância para pesquisa contextualizar o momento vivido em Porto Alegre, assim compreendermos melhor a vinda de um imigrante ligado tão intimamente com o aspecto cultural.
As condições sociais, culturais e de desenvolvimento industrial em Porto Alegre contribuíram de maneira significativa para vinda de imigrantes ligados à cultura, como é o caso do maestro Ângelo Crivellaro. O processo de modernização na capital gaúcha teve início desde o final do século XIX, por volta de 1870, quando começaram a aparecer os primeiros indícios do progresso. Nas primeiras décadas do século XX, a modernização avançou num ritmo acelerado e em diversos aspectos podemos observá-la, desde prédios ligados à cultura, a organização política, ao comércio, à infra-estrutura e à industrialização. A Câmara Municipal, Tribunal do Júri, Biblioteca Pública, Companhia Telefônica, estabelecimentos bancários, fábricas dos mais diversos produtos, enfim, prédios que demonstravam com clareza que Porto Alegre começava a acompanhar os novos tempos. Alguns viajantes deixaram registradas suas impressões sobre a cidade. Entre eles encontramos o naturalista norte-americano Herbert Smith (...) que ficou impressionado com a limpeza e a pavimentação das ruas, além da quantidade de estabelecimentos comerciais.[5], e o italiano Bucelli, que também impressionou-se com o grau de desenvolvimento industrial da cidade[6].
O processo de urbanização de Porto Alegre foi acelerado; já nas primeiras décadas de 1900 pode-se afirmar que ela era uma cidade cosmopolita. No início do século XX verificamos a chegada das primeiras salas de cinema, a arquitetura da cidade foi marcadamente influenciada pelo estilo renascentista, alguns imigrantes relacionados às artes começam a vir para capital, reforçando a situação de Porto Alegre como ponto de (...) confluência cultural.[7]. Neste contexto é que encontramos o maestro Ângelo.
Maestro Ângelo Crivellaro: vida e obra.
Apresentado o ambiente citadino encontrado por Ângelo Crivellaro, iniciei uma pesquisa mais profunda a respeito do personagem em si. No Arquivo Público de Porto Alegre, a intenção era de localizar documentos em que se pudessem encontrar as causas da homenagem recebida pelo maestro, assim, por conseguinte, encontrar-se-iam também relatos sobre sua vida no aspecto profissional. Na lei de número 3687/72 (lei que promulgou a rua como lugar de homenagem) estavam os motivos pelos quais Ângelo Crivellaro virou nome da rua em questão. Lá encontrei uma breve síntese de suas experiências profissionais, tanto na Itália (seu país de origem), como no Brasil, buscando assim justificar o requerimento do logradouro público como local de homenagem. Ângelo Crivellaro nasceu em três de maio de 1891 em Tombolo, na Itália, iniciou os estudos musicais aos seis anos e aos treze se formou como organista. O maestro era muito requisitado como organista oficial de duas cidades italianas, Tombolo e San Martín de Lujeri. Ainda na Itália, participou de vários concursos para virtuose do órgão, como compositor para órgão, para canto e piano. Obteve diversas vezes os primeiros lugares em concursos regionais de menor expressão, e nos de maior expressão obteve colocações respeitáveis como, por exemplo: bronze no concurso de Della Ditta em Perugia, por ter escrito uma missa em homenagem a S. S. Pio X; primeiro lugar no concurso da academia Umberto Tedeschi em Milão (dezembro de 1920), pela música para canto com a composição “Ora e Sempre”; segundo lugar também pela academia Umberto Tedeschi em Milão, com a obra “Sul Mare Nostro” (dezembro de 1926); ouro[8] e diploma de magistério dos cursos de composição e canto, expedidos pela Academia Ditta Ma. G. Caruana e C. Termmine Innerese em abril de 1927; ouro, cursos de canto e piano, diploma expedido pela mesma academia em abril de 1929; primeiro lugar com medalha de ouro no concurso organizado em Milão para composição de canto e piano, com a música “Nuevo Incontro” em maio de 1927, pela academia Ditta Ma. G. Caruana e C. Termmine Innerese; entre outros prêmios em Padova, Bolonha e Veneza.
No Brasil o maestro fez vários trabalhos como, por exemplo: foi organista da Catedral Metropolitana de Porto Alegre de 1927 a 1957 (ano de seu falecimento); foi organizador por mais de dez anos na parte artística da tradicional festa Madre de Deus; ficou responsável como organizador das comemorações com a Irmandade São Miguel e Almas; fundou o coral Palestrina, grupo surgido no bairro Navegantes, e por doze anos organizou no setor artístico das festas de Nossa Senhora dos Navegantes; o V congresso Eucarístico, em 1948, em Porto Alegre teve hino oficial de sua autoria; foi membro do orfeão Rio Grandense na década de trinta, onde apresentou sua ópera “Fancciula De La Selva”; introduziu no Rio Grande do Sul operetas infantis, como “Pequena Holandesa e Flor de Lótus”; encerrou sua vida artística de palco apresentando sua obra prima, “Hermes”; foi pioneiro nas apresentações públicas nos palcos do interior do Rio Grande do Sul e participou do concurso de obras musicais no centenário farroupilha (Porto Alegre, 1935), obtendo o diploma de primeiro prêmio. Fundador do Liceu Musical Palestrina, em 1938, deu esse nome em homenagem ao grande músico italiano Giovanni Pierluiggi Palestrina. A escola de música foi reconhecida como escola de ensino superior pelo governo federal, obteve três decretos de utilidade pública e formou, até 1972, mais de mil professores em Porto Alegre e mais de três mil no Estado do Rio Grande do Sul. O maestro faleceu em 17 de agosto de 1957 em Porto Alegre, devido a um ataque cardíaco[9].
Visto tantas realizações profissionais, foi expedido a Câmara Municipal um requerimento de homenagem ao maestro, pelo então vereador Glênio Peres, em sete de agosto de 1972. A resposta a este pedido foi positiva pela Câmara e a encontramos no documento oficial (essa aprovação ocorrera em vinte e dois de agosto de 1972):
“(...) seja denominada Ângelo
Crivellaro um logradouro público,
é altamente meritório, pois visa
homenagear a um eminente artista
desta cidade, que com sua
criatividade e ensinamentos
espargui cultura a nossa gente.”
.Creio ser importante ressaltar que o caso do maestro difere um pouco de uma boa parte dos imigrantes italianos, que destinaram-se para o Brasil vindos de um estado de pobreza na Itália e em busca de oportunidades, ou seja, o caso do maestro não é o do “italiano da esquina”[11], e sim é um dos casos que fogem desse paradigma. Já reconhecido e premiado na Itália, como visto nos parágrafos anteriores, a cidade trás o maestro com o objetivo de expandir sua dimensão cultural.
O intuito da cidade em trazê-lo é expresso, mas qual era o interesse do maestro em vir para Porto Alegre e como eram suas relações familiares e com seus alunos? À parte da pesquisa que se refere à vivência mais intima do maestro foi buscada através de entrevista oral com uma pessoa próxima dele, a sua nora Maria Ecilda Crivellaro[12], que forneceu importantes informações neste sentido, levando em consideração que essa entrevista apresenta a visão dela sobre o maestro, sendo uma fonte indiciária. A escolha da entrevistada se deve a que dona Ecilda é a última parenta que está viva e que teve contato direto com o maestro, pois os filhos do maestro já faleceram. Segundo a entrevistada, o maestro veio da Itália para o Brasil devido a querelas políticas. Como já visto pelos nomes das músicas que compunha, Ângelo tinha uma forte vinculação com a religiosidade católica e nesse período o partido político que se identificava com a Igreja Católica se encontrava em conflito com o partido fascista na Itália. A melhor saída para o maestro frente à ascensão do fascismo ao poder – sendo ele partidário do partido de oposição – foi mudar-se de país (a conselho dos próprios padres, segundo dona Ecilda). Essa teria sido a causa da vinda para o Brasil, mas essa mudança não seria para o Brasil e sim para a Argentina, mais especificadamente Buenos Aires. A causa da trajetória ter sido alterada a entrevistada não soube responder, porém disse que muito ouvia da família de seu sogro que a melhor coisa que eles podiam ter feito era terem se mudado para o Brasil. Ainda sobre a alteração de rota, não foi apenas essa ocorrida. O maestro antes de mudar-se para Porto Alegre desembarcou em Santa Maria, pois tinha um irmão que morava nessa cidade. Seu irmão tinha uma padaria e o maestro passou a ajudar nos serviços. Como Ângelo tinha referências muito positivas junto a Igreja Católica e a cidade de Porto Alegre precisava de um músico para organizar a orquestra sinfônica, o cardeal da Igreja Metropolitana convidou o maestro para vir para capital e ajudar nessa tarefa. Assim teria se dado à chegada de Ângelo Crivellaro a cidade de Porto Alegre.
Ao confrontar as informações cedidas por dona Maria Ecilda e os fatos históricos, encontramos realmente um sentimento anticatólico durante o primeiro Congresso Nacional Fascista (Florença, agosto de 1919), que embora tenha sido desfeito no segundo Congresso Nacional Fascista (maio de 1920), se percebe que a causa da vinda apontada pela entrevistada faz sentido. Referente a lei de proibição da fala do italiano durante a Segunda Guerra Mundial, Ecilda se referia ao decreto-lei número 1212 de 17 de abril de 1938.
Para saber um pouco mais sobre a vida pessoal do maestro perguntei a entrevistada como eram as relações dele com a família. Ela me relatou que quando casou com Antônio – filho do maestro – Ângelo já havia falecido, então dona Ecilda não chegou a ter contato direto como nora com o maestro, todavia relatou-me que ele era muito querido pela família e uma das demonstrações disso seria a constância com que os familiares visitavam o cemitério para ir ao seu túmulo. Disse-me que todos finais de semana iam visitá-lo e caso não pudessem ir, durante toda semana seguinte seus familiares ficavam lamentando, em especial seu esposo. Ademais a essa referência de demonstração de amor, disse-me que todos tinham uma lembrança de muito carinho dele, sempre remetendo a comportamentos de outros familiares que o lembravam, dizendo como ele era carinhoso com seus entes queridos e como era “tranqüilo” – usando o termo que a entrevistada utilizou com muita freqüência para se referir a ele –, e que dificilmente entrava em atrito com alguém. Enfim, a lembrança dele era muito positiva.
Quanto a sua relação com os alunos e a visão profissional sobre o maestro, dona Ecilda pode me relatar por vivência, pois foi sua aluna. Ela disse-me que o maestro sabia mesclar com habilidade a cobrança e exigência de bons resultados e o carinho e a atenção que um professor tem de ter por seus alunos. Mencionou que era um excelente profissional e que passava com muita destreza as lições de aula. Ainda disse-me que não apenas ela, mas muitos outros alunos do maestro compartilhavam dessa mesma opinião, ele era muito respeitado e admirado pelo seu trabalho e pela sua didática. A relação com seus alunos ia além do respeito, muitos deles tinham um carinho muito grande por Ângelo. No seu enterro uma grande parte dos alunos compareceu para prestar-lhe uma última homenagem. Ainda comentou sobre como ele foi pioneiro dentro do contexto citadino de Tombolo, em investir e acreditar numa carreira artística dentro de uma cidade que tinha sérios problemas de acessibilidade à cultura. Em relação ao pioneirismo, a entrevistada ressaltou como o Ângelo expandiu o cenário cultural do Estado com a implantação da Escola Palestrina.
A entrevistada forneceu informações extras sobre a vida do maestro, uma chamou muito a atenção, foi a de que Ângelo passou por sérias dificuldades quando entrou em vigor a proibição da fala em alemão e italiano no Brasil, devido a Segunda Grande Guerra Mundial, pois além de músico ele ensinava italiano e com essa proibição perdeu todos seus alunos, por conseguinte, uma das suas fontes de renda. Durante esse período de dificuldade foi auxiliado pela sua esposa, que trabalhou para ajudar na renda da família. Ainda como informação extra, disse-me que dentro da família, seu esposo, ela e sua sogra buscaram manter viva a memória do maestro, e que os resultados foram positivos. Além de terem desenvolvido o mesmo gosto pela música, ambos estudam música de forma acadêmica, atualmente os netos de Ângelo buscam recolher informações que o remetam, como músicas escritas por ele, documentos nos locais pelos quais ele passou e tudo mais que conseguirem.
E na memória, o que restou?
O intuito da cidade em trazê-lo é expresso, mas qual era o interesse do maestro em vir para Porto Alegre e como eram suas relações familiares e com seus alunos? À parte da pesquisa que se refere à vivência mais intima do maestro foi buscada através de entrevista oral com uma pessoa próxima dele, a sua nora Maria Ecilda Crivellaro[12], que forneceu importantes informações neste sentido, levando em consideração que essa entrevista apresenta a visão dela sobre o maestro, sendo uma fonte indiciária. A escolha da entrevistada se deve a que dona Ecilda é a última parenta que está viva e que teve contato direto com o maestro, pois os filhos do maestro já faleceram. Segundo a entrevistada, o maestro veio da Itália para o Brasil devido a querelas políticas. Como já visto pelos nomes das músicas que compunha, Ângelo tinha uma forte vinculação com a religiosidade católica e nesse período o partido político que se identificava com a Igreja Católica se encontrava em conflito com o partido fascista na Itália. A melhor saída para o maestro frente à ascensão do fascismo ao poder – sendo ele partidário do partido de oposição – foi mudar-se de país (a conselho dos próprios padres, segundo dona Ecilda). Essa teria sido a causa da vinda para o Brasil, mas essa mudança não seria para o Brasil e sim para a Argentina, mais especificadamente Buenos Aires. A causa da trajetória ter sido alterada a entrevistada não soube responder, porém disse que muito ouvia da família de seu sogro que a melhor coisa que eles podiam ter feito era terem se mudado para o Brasil. Ainda sobre a alteração de rota, não foi apenas essa ocorrida. O maestro antes de mudar-se para Porto Alegre desembarcou em Santa Maria, pois tinha um irmão que morava nessa cidade. Seu irmão tinha uma padaria e o maestro passou a ajudar nos serviços. Como Ângelo tinha referências muito positivas junto a Igreja Católica e a cidade de Porto Alegre precisava de um músico para organizar a orquestra sinfônica, o cardeal da Igreja Metropolitana convidou o maestro para vir para capital e ajudar nessa tarefa. Assim teria se dado à chegada de Ângelo Crivellaro a cidade de Porto Alegre.
Ao confrontar as informações cedidas por dona Maria Ecilda e os fatos históricos, encontramos realmente um sentimento anticatólico durante o primeiro Congresso Nacional Fascista (Florença, agosto de 1919), que embora tenha sido desfeito no segundo Congresso Nacional Fascista (maio de 1920), se percebe que a causa da vinda apontada pela entrevistada faz sentido. Referente a lei de proibição da fala do italiano durante a Segunda Guerra Mundial, Ecilda se referia ao decreto-lei número 1212 de 17 de abril de 1938.
Para saber um pouco mais sobre a vida pessoal do maestro perguntei a entrevistada como eram as relações dele com a família. Ela me relatou que quando casou com Antônio – filho do maestro – Ângelo já havia falecido, então dona Ecilda não chegou a ter contato direto como nora com o maestro, todavia relatou-me que ele era muito querido pela família e uma das demonstrações disso seria a constância com que os familiares visitavam o cemitério para ir ao seu túmulo. Disse-me que todos finais de semana iam visitá-lo e caso não pudessem ir, durante toda semana seguinte seus familiares ficavam lamentando, em especial seu esposo. Ademais a essa referência de demonstração de amor, disse-me que todos tinham uma lembrança de muito carinho dele, sempre remetendo a comportamentos de outros familiares que o lembravam, dizendo como ele era carinhoso com seus entes queridos e como era “tranqüilo” – usando o termo que a entrevistada utilizou com muita freqüência para se referir a ele –, e que dificilmente entrava em atrito com alguém. Enfim, a lembrança dele era muito positiva.
Quanto a sua relação com os alunos e a visão profissional sobre o maestro, dona Ecilda pode me relatar por vivência, pois foi sua aluna. Ela disse-me que o maestro sabia mesclar com habilidade a cobrança e exigência de bons resultados e o carinho e a atenção que um professor tem de ter por seus alunos. Mencionou que era um excelente profissional e que passava com muita destreza as lições de aula. Ainda disse-me que não apenas ela, mas muitos outros alunos do maestro compartilhavam dessa mesma opinião, ele era muito respeitado e admirado pelo seu trabalho e pela sua didática. A relação com seus alunos ia além do respeito, muitos deles tinham um carinho muito grande por Ângelo. No seu enterro uma grande parte dos alunos compareceu para prestar-lhe uma última homenagem. Ainda comentou sobre como ele foi pioneiro dentro do contexto citadino de Tombolo, em investir e acreditar numa carreira artística dentro de uma cidade que tinha sérios problemas de acessibilidade à cultura. Em relação ao pioneirismo, a entrevistada ressaltou como o Ângelo expandiu o cenário cultural do Estado com a implantação da Escola Palestrina.
A entrevistada forneceu informações extras sobre a vida do maestro, uma chamou muito a atenção, foi a de que Ângelo passou por sérias dificuldades quando entrou em vigor a proibição da fala em alemão e italiano no Brasil, devido a Segunda Grande Guerra Mundial, pois além de músico ele ensinava italiano e com essa proibição perdeu todos seus alunos, por conseguinte, uma das suas fontes de renda. Durante esse período de dificuldade foi auxiliado pela sua esposa, que trabalhou para ajudar na renda da família. Ainda como informação extra, disse-me que dentro da família, seu esposo, ela e sua sogra buscaram manter viva a memória do maestro, e que os resultados foram positivos. Além de terem desenvolvido o mesmo gosto pela música, ambos estudam música de forma acadêmica, atualmente os netos de Ângelo buscam recolher informações que o remetam, como músicas escritas por ele, documentos nos locais pelos quais ele passou e tudo mais que conseguirem.
E na memória, o que restou?
Tendo sido feita à pesquisa nos âmbitos mais gerais dos aspectos pessoais e profissionais do maestro, e observados todos seus dotes para receber essa homenagem, logradouro público, poderíamos resumi-los do seguinte modo: o maestro Ângelo Crivellaro foi um artista com viés musical religioso e conquistou diversas premiações ao longo de sua carreira. Em Porto Alegre ele implantou uma escola de música respeitada nacionalmente, colocando a cidade como uma referência nesse sentido, além de participar como organizador artístico de vários eventos festivos da cidade e também cultivou essa arte no interior do Estado. Então, podemos dizer que ele foi realmente um grande propagador de cultura no Estado do Rio Grande do Sul, e tento em vista tantas realizações nesse campo, não há como negar sua importância para cidade. Agora, esse meio de homenagem, um logradouro público, manteve viva na memória interna das pessoas todas essas realizações, ou sequer quem foi o maestro Ângelo Crivellaro? Será que o objetivo de um “monumento intencionado”, escrito por Aloïs Riegl, conseguiu alcançar êxito? A segunda parte desta pesquisa visou responder essa pergunta.
Em um primeiro momento averiguou-se se, conforme o documento oficial registrava, a placa indicativa da rua apresentava abaixo do nome do maestro referências a ele (compositor, professor e maestro). A placa encontrada não apresentava esses indicativos, e não foi localizada nenhuma outra que os apresentasse. Entrevistou-se um total de vinte e seis pessoas (entre moradores que vivem na rua uma média de sete a nove anos) indo de porta em porta e a um estabelecimento comercial. Apenas uma pessoa teve soube me responder que Ângelo Crivellaro foi um compositor e que trabalhou na Catedral Metropolitana, foi o senhor Francisco Ledesma, que é morador da rua a quarenta anos (antes mesmo da rua receber o nome atual) e mesmo assim não sabia que ele foi o fundador da escola de música Palestrina e nem que o maestro veio da Itália. Percebe-se que esse número de um para vinte e cinco é significativo para pesquisa, aonde se pode afirmar que apenas o nome da rua não é o suficiente para manter a memória nas pessoas, mesmo para as que vivem na rua em questão.
Ainda nesse viés de entrevistas, na escola de música fundada pelo maestro imaginei que o desconhecimento quanto ao fundador do local não seria tão expressivo... apenas imaginei. Entrevistou-se cerca de seis funcionários, entre atendentes, funcionários responsáveis pela limpeza do local e administradores. Nenhum dos entrevistados soube me responder quem foi o maestro, afinal a escola mudou de dono e de local, não pertence mais à família Crivellaro. Quanto à transferência de donos da escola busquei informações com a dona Maria Ecilda Crivellaro, mas ela disse que não queria tocar nesse assunto e referente aos registros antigos da escola, ninguém soube dizer aonde estavam. A maioria dos professores do local sabiam quem foi Ângelo Crivellaro, apenas um de cinco não soube me responder.
É inegável ao chegarmos a tais números que a teoria de Pierre Nora é comprovada, (...) sem vigilância comemorativa, a História depressa os varreria.[13], ou seja, sem que haja uma vivência referida ao maestro a tendência é de que o tempo o varresse na memória interna das pessoas, afinal estamos vivendo um momento de grande expansão da memória externa[14] e uma retração da memória interna, ainda segundo Pierre Nora e Jacques Le Goff. São tantas ruas, teatros, avenidas, museus e outros meio materiais que recebem nomes de pessoas importantes em homenagem, que esse grande número de informações ficam quase impossíveis de serem retidas. No entanto, acredito que para os moradores locais poder-se-ia fazer uma festa em homenagem a Ângelo Crivellaro, para que assim, pelo menos aos moradores daquela rua, sua lembrança se mantivesse viva na memória interna. Seguindo esse linha, Fernando Catroga escreve que (...) não haverá memória colectiva sem suportes de memória ritualisticamente compartilhados.[15]. Os locais de memória se multiplicam consideravelmente, a documentação escrita cresce vertiginosamente, tudo em busca de manter viva a memória de pessoas que tiveram seu papel na sociedade, mas o que fica disso na memória interior é muito pouco. Os lugares de memória são, antes de tudo, restos.[16], observa Nora, esses lugares de memória servem para compensar a falta da memória interna. Por mais que uma rua tenha seus três atributos, material, funcional e simbólico[17], o aspecto simbólico – que mantém o significado do lugar de memória - é o que menos prepondera, afinal, se fosse de maior importância ou pelo menos do mesmo nível das demais, talvez metade dos entrevistados saberiam quem foi o maestro. Não precisamos ir ao extremo como Nora, e dizermos que não existe mais memória interna, mas que sem cuidado ela diminuirá cada vez mais é inegável.
Considerações finais
Para concluirmos, percebemos que apesar de ter tido uma vida influente na sociedade porto-alegrense e rio-grandense, a memória de Ângelo Crivellaro perde-se quando se encontra apoiada apenas num suporte externo. Podemos difundir pesquisas como essa, por exemplo, analisarmos se locais que conservam uma atividade festiva em relação ao homenageado mantém realmente viva a memória interna deste, pois vimos que apenas o nome não preserva de forma efetiva. Os estudos sobre a memória, que nos chegaram através da Nova História, instiga-nos a pesquisar temas relativos a membros que não são de uma elite política da cidade, algo muito positivo a meu ver, visto as possibilidades que se abrem a nossa frente.
O maestro Ângelo Crivellaro, apesar de ter tido uma participação cultural muito intensa, tem tido sua memória perdida com o tempo, busquei aqui mantê-la viva, registrando suas realizações profissionais, suas relações pessoais e sua trajetória de vida. Ademais, quando se faz esse tipo de pesquisa retomam-se algumas passagens importantes da História (regional nesse caso) que vem se perdendo, pois como diz Heródoto (...) a historiografia nasceu para combater o esquecimento.[18] Apesar de não manter viva na memória interna das pessoas, percebemos que para nós, historiadores, o suporte externo é de muita utilidade, independentemente de qual tipo de suporte, pois eles são os vestígios que nos permitem aprofundarmo-nos numa pesquisa para retirar do esquecimento o personagem ou fato em questão.
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Foto do maestro Ângelo Crivellaro, cedida pela dona Maria Ecilda Crivellaro.
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Referências Bibliográficas:
ARQUIVO PÚBLICO DE PORTO ALEGRE, Lei número 3687/72.
BUCELLI, Vittorio. Un viaggio a Rio Grande Del Sud. Milão, Pallestrini, 1906.
CATROGA, Fernando. “Memória e história”. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy. Fronteiras do Milênio. Porto Alegre: UFRGS, 2001.
CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O Italiano da Esquina: meridionais na sociedade portoalegrense e permanência da identidade entre moraneses. São Paulo, 1990.
LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: UNICAMP, 1996.
LE GOFF, Jacques; LE ROY LADURIE; DUBY, Georges et al. A Nova História. Rio de Janeiro: Edições 70, 1989.
MEDEIROS, Laudelino T. O processo de urbanização no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Faculdade de Filosofia/Universidade do Rio Grande do Sul, 1959.
MENESES, Ulpiano Bezerra de. “A crise da memória”. In: SILVA, Zélia Lopes da. Arquivos, patrimônio e memória. São Paulo: UNESP/FASESP, 1990.
NORA, Pierre. “Entre memória e História: A problemática dos lugares”. In: Projeto História – Revista do PG em História da PUC-SP. São Paulo: Educ, 1981.
RIEGL, Aloïs. El Culto Moderno a los Monumentos. Madrid: Visor Distribuiciones, 1987.
SOUZA, Célia Ferraz & MULLER, Dóris Maria. Porto Alegre e sua evolução urbana. Porto Alegre: Ed. Da Universidade – UFRGS, 1997.
Entrevista:
Maria Ecilda Fioravante Crivellaro, em 10 de setembro de 2007. Localizada no Centro de História Oral da PUCRS.
Notas:
* Graduado em História (Bacharel e Licenciatura) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
[1] Termo utilizado por: NORA, Pierre. Entre memória e História: A problemática dos lugares. São Paulo: Educ, 1981.p.21.
[2] Memória intrínseca.
[3] RIEGL, Aloïs. El Culto Moderno a los Monumentos. Madrid: Visor Distribuiciones, 1997.p.23.
[4] A busca voluntária do saber sobre um determinado assunto.
[5] CONSTANTINO, Núncia M. S. de. O Italiano da Esquina: Meridionais na Sociedade Porto-Alegrense e Permanência da Identidade entre Moraneses. São Paulo, 1990. p.86.
[6] BUCELLI, Vittorio. Un viaggio a Rio Grande Del Sud. Milão, Pallestrini, 1906.
[7] MEDEIROS, Laudelino T. O processo de urbanização no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Faculdade de Filosofia/Universidade do Rio Grande do Sul, 1959.
[8] Ouro representando formação com mérito.
[9] Segundo entrevista realizada com a nora do maestro, Maria Ecilda Crivellaro, em 10 de setembro de 2007. Entrevista localizada no Centro de História Oral da PUCRS.
[10] ARQUIVO PÚBLICO DE PORTO ALEGRE, Lei número 3687/72.
[11] CONSTANTINO, Núncia M. S. de. O Italiano da Esquina: Meridionais na Sociedade Porto-Alegrense e Permanência da Identidade entre Moraneses. São Paulo, 1990.
[12] Entrevista realizada em 10 de setembro de 2007. Localizada no Centro de História Oral da PUCRS.
[13] NORA, Pierre. “Entre memória e História: A problemática dos lugares”. In: Projeto História – Revista do PG em História da PUC-SP. São Paulo: Educ, 1981.p.13.
[14] Lugares de memória (ruas de homenagem, praças, monumentos, livros, suportes em geral).
[15] CATROGA, Fernando. “Memória e história”. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy. Fronteiras do Milênio. Porto Alegre: UFRGS, 2001.p.48.
[16] NORA, Pierre. “Entre memória e História: A problemática dos lugares”. In: Projeto História – Revista do PG em História da PUC-SP. São Paulo: Educ, 1981.p.12.
[17] NORA, Pierre. “Entre memória e História: A problemática dos lugares”. In: Projeto História – Revista do PG em História da PUC-SP. São Paulo: Educ, 1981.p.21.
[18] CATROGA, Fernando. “Memória e história”. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy. Fronteiras do Milênio. Porto Alegre: UFRGS, 2001.p.54.
[1] Termo utilizado por: NORA, Pierre. Entre memória e História: A problemática dos lugares. São Paulo: Educ, 1981.p.21.
[2] Memória intrínseca.
[3] RIEGL, Aloïs. El Culto Moderno a los Monumentos. Madrid: Visor Distribuiciones, 1997.p.23.
[4] A busca voluntária do saber sobre um determinado assunto.
[5] CONSTANTINO, Núncia M. S. de. O Italiano da Esquina: Meridionais na Sociedade Porto-Alegrense e Permanência da Identidade entre Moraneses. São Paulo, 1990. p.86.
[6] BUCELLI, Vittorio. Un viaggio a Rio Grande Del Sud. Milão, Pallestrini, 1906.
[7] MEDEIROS, Laudelino T. O processo de urbanização no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Faculdade de Filosofia/Universidade do Rio Grande do Sul, 1959.
[8] Ouro representando formação com mérito.
[9] Segundo entrevista realizada com a nora do maestro, Maria Ecilda Crivellaro, em 10 de setembro de 2007. Entrevista localizada no Centro de História Oral da PUCRS.
[10] ARQUIVO PÚBLICO DE PORTO ALEGRE, Lei número 3687/72.
[11] CONSTANTINO, Núncia M. S. de. O Italiano da Esquina: Meridionais na Sociedade Porto-Alegrense e Permanência da Identidade entre Moraneses. São Paulo, 1990.
[12] Entrevista realizada em 10 de setembro de 2007. Localizada no Centro de História Oral da PUCRS.
[13] NORA, Pierre. “Entre memória e História: A problemática dos lugares”. In: Projeto História – Revista do PG em História da PUC-SP. São Paulo: Educ, 1981.p.13.
[14] Lugares de memória (ruas de homenagem, praças, monumentos, livros, suportes em geral).
[15] CATROGA, Fernando. “Memória e história”. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy. Fronteiras do Milênio. Porto Alegre: UFRGS, 2001.p.48.
[16] NORA, Pierre. “Entre memória e História: A problemática dos lugares”. In: Projeto História – Revista do PG em História da PUC-SP. São Paulo: Educ, 1981.p.12.
[17] NORA, Pierre. “Entre memória e História: A problemática dos lugares”. In: Projeto História – Revista do PG em História da PUC-SP. São Paulo: Educ, 1981.p.21.
[18] CATROGA, Fernando. “Memória e história”. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy. Fronteiras do Milênio. Porto Alegre: UFRGS, 2001.p.54.

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