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O Quarto Poder Vermelho: Estratégias de difusão do discurso
comunista através dos jornais Voz Cosmopolita e A Lanterna (1922-1935)
Resumo:O presente artigo propõe uma análise sobre a estrutura do discurso desenvolvido por membros do Partido Comunista do Brasil, nos jornais Voz Cosmopolita e A Lanterna, particularizando suas bases ideológicas e identificando a estratégia utilizada para seleção de textos impressos, bem como o seu público alvo.
Palavras-chave: História do Brasil, ideologia, discurso político, mídia impressa, Partido Comunista do Brasil, Voz Cosmopolita e A Lanterna.
A diversidade de obras referentes à formação do movimento operário brasileiro e sua tortuosa caminhada em busca de afirmação é relativamente ampla. O que pouco se conhece é o estudo da mídia impressa que plasmou o discurso do Partido Comunista do Brasil (PC do B) nos seus primeiros anos de atividade. Tanto o jornal Voz Cosmopolita quanto A Lanterna tinham um mesmo fim: atacar o sistema político e sócio-econômico brasileiro, suas instituições e, sobretudo, a classe dirigente do país.
As estratégias de discurso utilizadas por cada uma das publicações, entretanto, diferem muito, caracterizando vertentes ideológicas distintas que, driblando as divergências teóricas, conseguiram articular textos complementares no que tange à prática política. Portanto, a importância deste trabalho está justamente na oportunidade que propõe de identificar os princípios teóricos e práticos que nortearam a ação das primeiras lideranças operárias organizadas dentro do PC do Brasil através do reavivamento da memória desses militantes e de suas manifestações na imprensa.
Voz Cosmopolita era uma publicação organizada pelo Núcleo de Trabalhadores em Hotéis, bares e restaurantes do Rio de Janeiro, mas seus editoriais eram destinados aos trabalhadores dos mais diversos setores produtivos da sociedade brasileira com o intuito de organizar a luta proletária. Sua atividade se desenvolveu tenazmente ultrapassando, inclusive, os penosos obstáculos da falta de instrução como fica expresso nas palavras de um dos membros da organização:
Um rasgo de audácia que chega á temeridade, lança no seio da classe, hoje, 1º de janeirode 1922, a Voz Cosmopolita. Não ignoram, estou bem certo, a difficuldade de empreza. Sabem que têm de luctar tenazmente, quetêm de fazer das próprias fraquezas e forças e que apezar de tudo, muito deixarão a desejar,pois nem são jornalistas, nem por sonho roçaramos bancos de uma academia e isso porque todossabemos que a intrucção é monopólio dos ricos [sic!].[1]
Atualmente o acervo que corresponde ao período de 1922 a 1926 se encontra no Arquivo da Universidade de Campinas (UNICAMP) em São Paulo e está digitalizado no Fundo Astrogildo Pereira; o mesmo ocorre com o jornal A Lanterna, publicação da ala anarquista do PC do B. Todavia, o segundo se estende até o ano de 1935 e articula praticamente todo o seu discurso como uma reação à Igreja tendo como base teórica mais próxima um anarco-sindicalismo que mescla elementos de um marxismo-leninismo pouco absorvido.
Os anos de 1920 e 1930 representam na história do movimento operário brasileiro o período de gestação do primeiro partido político de esquerda, o Partido Comunista do Brasil, e marcam as constantes tentativas da agremiação em se tornar parte integrante e ativa de um contexto mais amplo de lutas e conquistas proletárias plasmadas na Terceira Internacional Comunista.
Este é um tempo de rupturas teóricas e práticas, é o momento em que um novo horizonte se abre na perspectiva urbana. A esquerda brasileira na década de 20 se baseia num princípio claro de “aglutinação corporativa” e está muito mais próxima de uma associação reivindicatória por melhores condições de trabalho do que de fato constitui-se num órgão de identificação classista, o que convém dizer, se trata de um mecanismo de ação diretamente ligado aos ideais ácratas que chegam antes nos principais centros econômicos do país e se fundem na ação dos representantes sindicais dos principais setores de produção de mercadorias da sociedade.
É curioso atestar que essa mesma década produz um partido político simbolicamente marxista-leninista, na medida em que assume uma organização estrutural baseada no centralismo democrático e tenta induzir uma aproximação maior com a Internacional Comunista como forma de se afirmar politicamente numa condição de pertencimento ao movimento internacionalista muito presente na URSS nesse momento, mas simultaneamente demonstra orientação ácrata em suas ações e na própria produção intelectual que se propõe difundir como a essência do movimento. O próprio fundador do Partido Comunista Brasileiro, Astrojildo Pereira, em intervenção ao prefácio escrito por Silvio Romero em Obras Completas de Tobias Barreto assinala sua “aceitação entusiástica da ideologia anarquista desde 1910” juntando-se à “ausência de tradição marxista no país” o que segundo ele constituía “um lastro ideológico difícil de alijar”.
[2]As declarações de Astrojildo Pereira são taxativas quando nos remetem a uma prática política pouco ou nada condizente com o marxismo, no entanto, a roupagem revolucionária na qual o PCB se escondia nesse momento era resultado, sobretudo, de uma transformação social e de uma necessidade criada por esses militantes, que evidenciou a incapacidade das formas antigas de representação caracterizadas por greves, piquetes ou Assembléias subdivididas em categorias de ofício, de não se mostrarem satisfatórias na melhoria das condições de trabalho dessa parcela reivindicante da população, o que também é observado por Astrojildo Pereira como uma “ideologia pequeno-burguesa”
[3] ainda muito presente na ação dos líderes do Partido Comunista Brasileiro.
Na verdade o marxismo-leninismo só começa a penetrar nas fileiras do Partido na década de 30, conseqüência lógica das mudanças na ordem social. No cenário Internacional temos a morte prematura de Lênin e a alavanca política de Stálin que reformula o marxismo e conduz a uma prática ideológica estreita com diretrizes formais de ação impostas sobre todas as instâncias partidárias ligadas à URSS. Oscar Negt define com propriedade o período histórico onde convergem a teoria e a prática em ação revolucionária:
A destruição de formas tradicionais de existência e vida cria as condições objetivaspara a ação revolucionária do proletariado; o partido proletário cria as subjetivas; e as duas tendências convergem. [4]
A ruptura histórica que se impõe ao PC do Brasil na década de 30 desencadeia uma nova condição de pertencimento ideológico à URSS, partindo de um marxismo-leninismo pouco definido, assimilando e reordenando uma quebra com setores trotskistas e ainda incorporando as normativas impostas pelo marxismo-leninismo-stalinismo; a organização se vê diante de um processo complexo de adequação de idéias onde suas bases de sustentação política ainda são frágeis e não amparam um projeto ideológico articulado de difusão das doutrinas de ação, somado a isso se deve levar em conta a recente filiação do Partido à Internacional Comunista, oficializada em 1924, o que não lhes garantia segurança de atividade agregado à dificuldade constante de manter-se como uma organização legal dentro do país, como observa Dênis de Moraes:
O virulento anticomunismo de nossas elites impediu, durante décadas de irrisório pluralismo, a organização legal dos marxistas brasileiros. O itinerário da mídia do PCB, por isso mesmo, foi bastante aciden--tado. Diversas vezes a repressão policial obrigou as publicações à clandestinidade ou à mudança de nome, como forma de resistência. [5]Como assinala Moraes, a mídia impressa do Partido e aqui representada pelos jornais Voz Cosmopolita e A Lanterna manteve-se firme na tarefa de difundir as idéias de forma a embasar teoricamente sua atividade e expandir sua ação sobre as massas; esteve muito próxima do marxismo-leninismo quando viu nesse mecanismo de divulgação a base de sua propaganda e a forma de atingir maior número de leitores através de um texto engajado e de fácil compreensão que filtrava matérias teóricas e intercalava com notícias da articulação do movimento comunista internacional, fomentando o espírito internacionalista e relacionando artigos dos líderes do PC brasileiro, compelindo o leitor a universalizar a problemática da luta proletária.
Os periódicos comunistas constituíam-se tanto como mecanismos de conscientização no que tangencia a luta histórica do proletariado contra o capitalismo, como direcionavam as discussões teóricas e a ação dos filiados ao Partido; nas palavras de Moraes:
Podemos resumir o modelo em três pressu--postos: 1) educar as massas para elevar onível de consciência política; 2) organizar os setores mais combativos da classe operária em torno do partido; 3) propa--gar a linha ideológica. [6]
Este processo de difusão de idéias tem sua origem na década de 20 quando o marxismo-leninismo ainda era uma constante na linha partidária; com o stalinismo associado a essa perspectiva são produzidas inovações, sobretudo, com o realismo socialista que atinge diretamente a literatura narrativa e a poesia conduzindo à “exaltação do herói proletário”. Esse processo de construção ideológica se equipara ao produzido na União Soviética e, em linhas gerais, preocupa-se em criar um líder nacional capaz de aglutinar a massa trabalhadora em torno de si alavancando o processo revolucionário através da figura do “herói militante”. Tal movimento produziu uma quebra de paradigmas dentro da esquerda brasileira, muitos escritores começaram a se questionar sobre sua função histórica dentro do movimento na medida em que o realismo cerceava a criação artística e contrariava a perspectiva leninista que rejeitava apenas o que tivesse conteúdo reacionário em uma herança cultural.
Se a análise estiver centrada na bipolaridade do mundo, socialismo versus capitalismo, a tendência realista torna-se uma necessidade quando propõe a afirmação de valores que se opõem diretamente ao adversário, porém, no Brasil a apropriação dessa metodologia não tinha esse objetivo e logo causou um cenário de desarticulação e abandono no partido. Nessa época, muitos intelectuais preferiram se desligar do PCB à ter que produzir “panfletos literários” e viam nessa política uma contradição evidente com o caráter emancipador da consciência crítica que tanto alimentou.
Uma análise eminentemente teórica como a que se propõe nesta pesquisa constitui base de referência contextual. A escolha de trabalho centrada no espaço temporal que vai de 1922 a 1935 liga-se a uma conjuntura de rupturas dentro do movimento operário. Inicialmente temos a fragmentação política caracterizada por congressos operários subdivididos tão somente pelo ofício, com a fundação do partido a quebra se estabelece através da estratégia de ação e da uniformidade teórica que passa a nortear o discurso de um grupo dirigente que se integra por diversos mecanismos ideológicos aos demais militantes, levando-se em conta os anos 20 e toda sua carga repressiva visivelmente enraizada em uma sociedade onde a extensão política do coronelismo ainda é muito presente. Tal contexto é descrito nitidamente na obra de Paulo Sérgio Pinheiro como segue:
A política é fatalmente agrária, política de
fazendeiros de café, instalados no catete.
Existe uma oposição burguesa desorganiza-
-da, caótica. Dois únicos partidos organiza-
dos -o Comunista, ainda fraco, pobre, fundado
há pouco mais de dois anos e o Partido Republi-
cano, dos grandes fazendeiros de café, partido
forte, rico, partido do governo – quer dizer, os
dois extremos, a extrema esquerda e a extrema
direita. Uma burguesia industrial e comercial
politicamente nula, desorganizada. O atraso
político é tamanho que a burguesia industrial
ainda não formou o seu partido, enquanto o
proletariado já conseguiu forjar o seu partido
No final dos anos 20, entretanto, outra quebra se estabelece a partir do momento em que o partido entra na ilegalidade e age preponderantemente sob a sigla do BOC (Bloco Operário e Camponês) que provoca nova forma de intervenção política através da frente única. Ao mesmo tempo em que temos uma interação com maior número de militantes há conseqüentemente fragmentação teórica, paradoxalmente a agremiação se amplia, mas seu caráter intrínseco de universalidade ideológica se restringe e a luta cai no desvio pequeno-burguês.
A década de 30 traz novo impasse à organização partidária dos comunistas; os sindicatos que constituíam parte de sua base de apoio passaram a ser demasiadamente controlados por Getúlio Vargas que fez concessões ao setor trabalhista para conter a expansão do movimento no país. Tendo participação nas reuniões internacionais do Comintern o PCB, mesmo agindo sob a égide da frente única, opta por uma nova estratégia de ação, erroneamente interpreta o cenário brasileiro com bases instáveis favorecendo o processo revolucionário e se articula com a URSS para desencadear a insurreição das massas no Brasil.
O desconhecimento da realidade brasileira e a pouca visibilidade histórica do momento conduz o partido a uma nova fase direcionada pela alternância de líderes, reflexão teórica e revisão histórica onde a ideologia, trabalhada num discurso impresso e amplamente difundido através dos jornais representativos de movimentos operários diversos, poderá ser a chave mestra para a consolidação da identidade política do Partido Comunista do Brasil.
Levando-se em conta a organização interna do Partido Comunista do Brasil nos anos de 1922 a 1935 e sua efetiva filiação a Terceira Internacional é possível inferir que grande parte do discurso articulado pela mídia impressa aqui representada nos jornais Voz Cosmopolita e A Lanterna se baseava num conjunto de normativas impostas pelo Comintern e derivadas de discussões que eram pertinentes ao movimento comunista internacional e, para tanto, universalizadas nessa esfera política. Porém, tudo leva a crer que os textos selecionados para publicação estavam submetidos apenas a uma clivagem local do PC do B. Tratando-se de duas publicações implementadas como reação do Partido Comunista do Brasil contra o regime de exceção vigente no Brasil dos anos de 1920 ambos os jornais destinavam-se aos trabalhadores da indústria e do comércio de forma geral estando intrínseco nos anos 20, as raízes do pensamento ácrata enquanto na década de 30 o que vemos é um discurso marxista-leninista, ainda que muitas vezes vulgarizado.
Referências Bibliográficas:CARONE, Edgard. Socialismo e Anarquismo no início do século. Petrópolis: Vozes, 1995.
HOBSBAWM, Eric J. História do Marxismo: O Marxismo na Época da Segunda Internacional. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
KONDER, Leandro. A Derrota da dialética: recepção das idéias de Marx no Brasil até o começo dos anos trinta. Rio de Janeiro: Campus, 1998.
MORAES, Dênis de. O imaginário vigiado: a imprensa comunista e o realismo socialista no Brasil (1947-53). Rio de Janeiro: José Olympio, 1994.
PINHEIRO, Paulo Sérgio e HAAL, Michael M. A Classe Operária no Brasil: documentos (1889 a 1930, volume I – O Movimento Operário). São Paulo: Editora Alfa Omega, 1979.
_________. Estratégias da Ilusão: a revolução mundial e o Brasil (1922-1935). São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
Acervos e Jornais:INTERVENÇÃO de. Astrojildo Pereira ao prefácio de Silvio Romero em Obras Completas de Tobias Barreto. Arquivo Astrojildo Pereira. Centro de Documentação e Memória da UNESP, 1890-1965.
VOZ COSMOPOLITA, Rio de Janeiro: 1922 a 1926.
A LANTERNA, São Paulo: 1922 a 1935.
Notas:* Acadêmica do Curso de História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. Este trabalho foi desenvolvido para a disciplina de Estágio I ministrada pela Professora Elisabeth Rochadel Torresini.
[1] DOVAL, Argemiro, As novas energias: o que as impulsiona e suas armas seu presente de anno novo á classe, Voz Cosmopolita, Rio de Janeiro, 01.01.1922, p.2.
[2] INTERVENÇÃO de. Astrojildo Pereira ao prefácio de Silvio Romero em Obras Completas de Tobias Barreto. Arquivo Astrojildo Pereira. Centro de Documentação e Memória da UNESP, 1890-1965. p. 23
[3] INTERVENÇÃO de. Astrojildo Pereira ao prefácio de Silvio Romero em Obras Completas de Tobias Barreto. Arquivo Astrojildo Pereira. Centro de Documentação e Memória da UNESP, 1890-1965.
[4] NEGT, Oscar In HOBSBAWM, Eric J. História do Marxismo: O Marxismo na Época da Segunda Internacional. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. p. 135-136
[5] MORAES, Dênis de. O imaginário vigiado: a imprensa comunista e o realismo socialista no Brasil (1947-53). Rio de Janeiro: José Olympio, 1994. p. 58
[6] MORAES, Dênis de. O imaginário vigiado: a imprensa comunista e o realismo socialista no Brasil (1947-53). Rio de Janeiro: José Olympio, 1994. p. 63
[7] PINHEIRO, Paulo Sérgio. A Classe Operária no Brasil: documentos (1889-1930). Vol 1. São Paulo: Alfa ômega, 1979. p. 272-273